Adoniram Barbosa, 72 anos, autor de O Trem das Onze, morreu as 17h15 de complicações respiratórias, no Hospital São Luis, na capital paulista. Ele estava internado desde o dia 19 de novembro, em tratamento de bronquite crônica e enfisema pulmonar. Casado, sem filhos, foi sepultado no Cemitério da Paz, naquela cidade.
A perda de Adoniram deixa órfãos personagens como Iracema, a heroína do samba famoso que morre atropelada na Avenida São João, a 20 dias do casamento, ou o operário que é obrigado a deixar a mulher amada para não perder o trem das onze que vai para Jaçanã. Com Adoniram, desaparece uma das mais poéticas e engraçadas facetas da São Paulo do século XX, que conheceu o progresso e a destruição.
Cantor, compositor e ator, Adoniram nasceu João Rubinato em Valinhos, interior de São Paulo no dia 6 de agosto de 1910, filho de imigrantes italianos. Começou a trabalhar cedo, auxiliando o pai no carregamento de vagões da estrada de ferro no interior paulista. Depois, foi entregador de marmitas, varredor, tecelão, pintor, encanador, serralheiro, garçon, até aprender o ofício de metalúrgico, experiência que lhe deixaria uma ingrata herança. O esmerilhamento de ferro foi fatal para seus pulmões, tornando-os doentios pelo resto da vida.
O início no meio artístico foi pelo rádio, em programas de calouros. Tendo a voz rouca como porta de entrada para o primeiro emprego (não remunerado!) no cenário musical, logo começou a compor letras. Nesta época adotou o nome artístico Adoniram Barbosa. Vieram também os primeiros papéis de ator, interpretando diferentes personagens. E o aprimoramento do linguajar característico que usaria nos sambas reveladores do cotidiano da vida paulistana dos anos 50, cosmopolita, acolhedora de imigrantes europeus e retirantes nordestinos, de dialeto próprio. A essa altura, associado aos Demônios da Garoa, faz o Brasil inteiro cantar a linguagem arrevesada dos botequins paulistanos e projeta Saudosa Maloca, Tiro ao Álvaro e Bom dia Tristeza entre os clássicos que marcaram a história da música popular brasileira.
Feito para concorrer ao concurso do carnaval do IV Centenário do Rio, Trem das Onze é considerado o maior sucesso de Adoniram. E até hoje, quem experimentar cantar os versos desse samba num bar, certamente não ficará sem resposta e sem coro:
"Nâo posso ficar nem mais um minuto com você
Sinto muito, amor, mas não pode ser
Moro em Jaçanã
Se eu perder este trem que sai agora as onze horas
Só amanhã de manhã"
(FONTE: BLOG DE HISTÓRIA DA UNIVERSIDADE DE PASSO FUNDO-RS)
A morte de um mito
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